A mentira

Mentir sempre me foi um recurso para sonhar. Alguns bons amigos que fiz nos últimos tempos tentaram me convencer de que a verdade é importante, e dizê-la sempre com convicção me tornaria um homem mais honesto e digno de confiança. Pois digo-lhes, meus caros, que isto não se trata de um simples embate entre a verdade e a mentira, mas uma batalha entre realidade e a fantasia. As aventuras que permeiam o cotidiano são cansativas e um tanto repetitivas, e só com pequenas alterações eu consigo tornar a vida um tanto agradável e cheia de poesia.

Além do mais as cicatrizes mostram que o passado foi real, mas me custa lembrar o que fiz e o que não. Me abstenho toda culpa que uma mentira maldosa carrega, porque desse mal eu não morro. Não minto pra levar vantagem ou para enganar alguém. Tento agradar a todos transformando a todos, é uma faceta da mentira. Há tempos perdi a vontade de ser o amigo ideal, mas por anos tentei o impossível. É importante que todos percebam o quão importante é saber que nunca serremos perfeitos. Há pouco perdi o rumo desta história.

A vida é muito chata, e falta coragem para vencer essa aporrinhação que é a realidade. Os que me conhecem sabem que não possuo o ímpeto que move os aventureiros, e a mentira torna tudo isso suportável – assim como a arte que move o artista. Minha mentira inclusive me mantém na linha, e atua para que as substancias tóxicas não sejam necessárias, destruindo a sensibilidade e alterando a química do meu cérebro. Uns usam muitas drogas, uns batem com a cabeça na parede, uns olham no espelho e repetem até acreditar. Eu minto.

O meu pai é e sempre foi o alvo predileto de minha anedotas, talvez por ser um senhor muito duro e eu não desejar isso. Piadas que eu mesmo invento e que atribuo ao meu pai são das farsas mais cotidianas. Quem dera que ele me surpreendesse todos os dias com as coisas que invento, e me fizesse rir do jeito que faço os outros. Apesar de tudo ele me surpreende todos os dias, ainda que de um outro jeito. Talvez eu tenha um pouco mais de senso de humor, digamos.

Por fim, sinto confessar que acredito tanto nas minhas mentiras que todos vocês estão transformados em mim. Não vivem mais como imaginam e não adianta esforço para mudar esta imagem. O mentiroso que existe em mim aprendeu a filtrar as encenações. Assim como se eu fosse a mentira. E assim como se mentir fosse a minha libertação.


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