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	<title>Literatura Brasileira</title>
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	<description>Trabalho de conclusão da disciplina Literatura Brasileira (FFLCH-USP)</description>
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		<title>Uma Mulher Chamada Guitarra &#8211; Vinícius de Moraes</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Jun 2008 03:04:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lucasmontan</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um dia, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era &#8220;a música em forma de mulher&#8221;. A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d&#8217;esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=17&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era &#8220;a música em forma de mulher&#8221;. A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d&#8217;esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.</p>
<p>0 violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina — viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo — o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada, mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.</p>
<p>Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar, preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em benefício de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.</p>
<p>Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer &#8220;passado na cara&#8221; por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.</p>
<p>Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d&#8217;amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas&#8230; Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.</p>
<p>Ponha-se num céu alto uma Lua tranqüila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranqüila num céu alto? E eu vos responderei; um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/literaturabrasileira.wordpress.com/17/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/literaturabrasileira.wordpress.com/17/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/literaturabrasileira.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/literaturabrasileira.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/literaturabrasileira.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/literaturabrasileira.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/literaturabrasileira.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/literaturabrasileira.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/literaturabrasileira.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/literaturabrasileira.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/literaturabrasileira.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/literaturabrasileira.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/literaturabrasileira.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/literaturabrasileira.wordpress.com/17/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/literaturabrasileira.wordpress.com/17/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/literaturabrasileira.wordpress.com/17/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=17&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Meu Ideal Seria Escrever&#8230; &#8211; Rubem Braga</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Jun 2008 03:00:36 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse &#8212; &#8220;ai meu Deus, que história mais engraçada!&#8221;. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=16&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse &#8212; &#8220;ai meu Deus, que história mais engraçada!&#8221;. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria &#8212; &#8220;mas essa história é mesmo muito engraçada!&#8221;.</p>
<p>Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.</p>
<p>Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse &#8212; e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse &#8212; &#8220;por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!&#8221; . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.</p>
<p>E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago &#8212; mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: &#8220;Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina&#8221;.</p>
<p>E quando todos me perguntassem &#8212; &#8220;mas de onde é que você tirou essa história?&#8221; &#8212; eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: &#8220;Ontem ouvi um sujeito contar uma história&#8230;&#8221;.</p>
<p>E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/literaturabrasileira.wordpress.com/16/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/literaturabrasileira.wordpress.com/16/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/literaturabrasileira.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/literaturabrasileira.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/literaturabrasileira.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/literaturabrasileira.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/literaturabrasileira.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/literaturabrasileira.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/literaturabrasileira.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/literaturabrasileira.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/literaturabrasileira.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/literaturabrasileira.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/literaturabrasileira.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/literaturabrasileira.wordpress.com/16/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/literaturabrasileira.wordpress.com/16/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/literaturabrasileira.wordpress.com/16/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=16&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Vestida de Preto &#8211; Mário de Andrade</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Jun 2008 01:57:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lucasmontan</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade. Minha impressão é que tenho amado sempre. Depois do amor grande por mim que brotou aos três anos e durou até os cinco mais ou menos, logo o meu amor [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=14&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade. Minha impressão é que tenho amado sempre. Depois do amor grande por mim que brotou aos três anos e durou até os cinco mais ou menos, logo o meu amor se dirigiu para uma espécie de prima longínqua que freqüentava a nossa casa. Como se vê, jamais sofri do complexo de Édipo, graças a Deus. Toda a minha vida, mamãe e eu fomos muito bons amigos, sem nada de amores perigosos.</p>
<p>Maria foi o meu primeiro amor. Não havia nada entre nós, está claro, ela como eu nos seus cinco anos apenas, mas não sei que divina melancolia nos tomava, se acaso nos achávamos juntos e sozinhos. A voz baixava de tom, e principalmente as palavras é que se tornaram mais raras, muito simples. Uma ternura imensa, firme e reconhecida, não exigindo nenhum gesto. Aquilo aliás durava pouco, porque logo a criançada chegava. Mas tínhamos então uma raiva impensada dos manos e dos primos, sempre exteriorizada em palavras ou modos de irritação. Amor apenas sensível naquele instinto de estarmos sós.</p>
<p>E só mais tarde, já pelos nove ou dez anos, é que lhe dei nosso único beijo, foi maravilhoso. Se a criançada estava toda junta naquela casa sem jardim da Tia Velha, era fatal brincarmos de família, porque assim Tia Velha evitava correrias e estragos. Brinquedo aliás que nos interessava muito, apesar da idade já avançada para ele. Mas é que na casa de Tia Velha tinha muitos quartos, de forma que casávamos rápido, só de boca, sem nenhum daqueles cerimoniais de mentira que dantes nos interessavam tanto, e cada par fugia logo, indo viver no seu quarto. Os melhores interesses infantis do brinquedo, fazer comidinha, amamentar bonecas, pagar visitas, isso nós deixávamos com generosidade apressada para os menores. Íamos para os nossos quartos e ficávamos vivendo lá. O que os outros faziam, não sei. Eu, isto é, eu com Maria, não fazíamos nada. Eu adorava principalmente era ficar assim sozinho com ela, sabendo várias safadezas já mas sem tentar nenhuma. Havia, não havia não, mas sempre como que havia um perigo iminente que ajuntava o seu crime à intimidade daquela solidão. Era suavíssimo e assustador.</p>
<p>Maria fez uns gestos, disse algumas palavras. Era o aniversário de alguém, não lembro mais, o quarto em que estávamos fora convertido em dispensa, cômodas e armários cheios de pratos de doces para o chá que vinha logo. Mas quem se lembrasse de tocar naqueles doces, no geral secos, fáceis de disfarçar qualquer roubo! estávamos longe disso. O que nos deliciava era mesmo a grave solidão.</p>
<p>Nisto os olhos de Maria caíram sobre o travesseiro sem fronha que estava sobre uma cesta de roupa suja a um canto. E a minha esposa teve uma invenção que eu também estava longe de não ter. Desde a entrada no quarto eu concentrara todos os meus instintos na existência daquele travesseiro, o travesseiro cresceu como um danado dentro de mim e virou crime. Crime não, &#8220;pecado&#8221; que é como se dizia naqueles tempos cristãos&#8230; E por causa disso eu conseguira não pensar até ali, no travesseiro.</p>
<p>– Já é tarde, vamos dormir – Maria falou.</p>
<p>Fiquei estarrecido, olhando com uns fabulosos olhos de imploração para o travesseiro quentinho, mas quem disse travesseiro ter piedade de mim. Maria, essa estava simples demais para me olhar e surpreender os efeitos do convite: olhou em torno e afinal, vasculhando na cesta de roupa suja, tirou de lá uma toalha de banho muito quentinha que estendeu sobre o assoalho. Pôs o travesseiro no lugar da cabeceira, cerrou as venezianas da janela sobre a tarde, e depois deitou, arranjando o vestido pra não amassar.</p>
<p>Mas eu é que nunca havia de pôr a cabeça naquele restico de travesseiro que ela deixou pra mim, me dando as costas. Restico sim, apesar do travesseiro ser grande. Mas imaginem numa cabeleira explodindo, os famosos cabelos assustados de Maria, citação obrigatória e orgulho de família. Tia Velha, muito ciumenta por causa duma neta preferida que ela imaginava deusa, era a única a pôr defeito nos cabelos de Maria.</p>
<p>– Você não vem dormir também? – ela perguntou com fragor, interrompendo o meu silêncio trágico.</p>
<p>– Já vou – que eu disse – estou conferindo a conta do armazém.</p>
<p>Fui me aproximando incomparavelmente sem vontade, sentei no chão tomando cuidado em sequer tocar no vestido, puxa! também o vestido dela estava completamente assustado, que dificuldade! Pus a cara no travesseiro sem a menor intenção de.</p>
<p>Mas os cabelos de Maria, assim era pior, tocavam de leve no meu nariz, eu podia espirrar, marido não espirra. Senti, pressenti que espirrar seria muito ridículo, havia de ser um espirrão enorme, os outros escutavam lá da sala-de-visita longínqua, e daí é que o nosso segredo se desvendava todinho.</p>
<p>Fui afundando o rosto naquela cabeleira e veio a noite, sinão os cabelos (mas juro que eram cabelos macios) me machucavam os olhos. Depois que não vi nada, ficou fácil continuar enterrando a cara, a cara toda, a alma, a vida, naqueles cabelos, que maravilha! até que o meu nariz tocou num pescocinho roliço. Então fui empurrando os meus lábios, tinha uns bonitos lábios grossos, nem eram lábios, era beiço, minha boca foi ficando encanudada até que encontrou o pescocinho roliço. Será que ela dorme de verdade?&#8230; Me ajeitei muito sem-cerimônia, mulherzinha! e então beijei. Quem falou que este mundo é ruim! só recordar&#8230; Beijei Maria, rapazes! eu nem sabia beijar, está claro, só beijava mamães, boca fazendo bulha, contato sem nenhum calor sensual.</p>
<p>Maria, só um leve entregar-se, uma levíssima inclinação pra trás me fez sentir que Maria estava comigo em nosso amor. Nada mais houve. Não, nada mais houve. Durasse aquilo uma noite grande, nada mais haveria porque é engraçado como a perfeição fixa a gente. O beijo me deixara completamente puro, sem minhas curiosidades nem desejos de mais nada, adeus pecado e adeus escuridão! Se fizera em meu cérebro uma enorme luz branca, meu ombro bem que doía no chão, mas a luz era violentamente branca, proibindo pensar, imaginar, agir. Beijando.</p>
<p>Tia Velha, nunca eu gostei de Tia Velha, abriu a porta com um espanto barulhento. Percebi muito bem, pelos olhos dela, que o que estávamos fazendo era completamente feio.</p>
<p>– Levantem!&#8230; Vou contar pra sua mãe, Juca!</p>
<p>Mas eu, levantando com a lealdade mais cínica deste mundo!</p>
<p>– Tia Velha me dá um doce?</p>
<p>Tia Velha – eu sempre detestei Tia Velha, o tipo da bondade Berlitz, injusta, sem método – pois Tia Velha teve a malvadeza de escorrer por mim todo um olhar que só alguns anos mais tarde pude compreender inteiramente. Naquele instante, eu estava só pensando em disfarçar, fingindo uma inocência que poucos segundos antes era real.</p>
<p>        – Vamos! saiam do quarto!</p>
<p>        Fomos saindo muito mudos, numa bruta vergonha, acompanhados de Tia Velha e os pratos que ela viera buscar para a mesa de chá.</p>
<p>        O estranhíssimo é que principiou, nesse acordar à força provocado por Tia Velha, uma indiferença inexplicável de Maria por mim. Mais que indiferença, frieza viva, quase antipatia. Nesse mesmo chá inda achou jeito de me maltratar diante de todos, fiquei zonzo.</p>
<p>        Dez, treze, quatorze anos&#8230; Quinze anos. Foi então o insulto que julguei definitivo. Eu estava fazendo um ginásio sem gosto, muito arrastado, cheio de revoltas íntimas, detestava estudar. Só no desenho e nas composições de português tirava as melhores notas. Vivia nisso: dez nestas matérias, um, zero em todas as outras. E todos os anos era aquela já esperada fatalidade: uma, duas bombas (principalmente em matemáticas) que eu tomava apenas o cuidado de apagar nos exames de segunda época.</p>
<p>        Gostar, eu continuava gostando muito de Maria, cada vez mais, conscientemente agora. Mas tinha uma quase certeza que ela não podia gostar de mim, quem gostava de mim!&#8230; Minha mãe&#8230; Sim, mamãe gostava de mim, mas naquele tempo eu chegava a imaginar que era só por obrigação. Papai, esse foi sempre insuportável, incapaz de uma carícia. Como incapaz de uma repreensão também. Nem mesmo comigo, a tara da família, ele jamais ralhou. Mas isto é caso pra outro dia. O certo é que, decidido em minha desesperada revolta contra o mundo que me rodeava, sentindo um orgulho de mim que jamais buscava esclarecer, tão absurdo o pressentia, o certo é que eu já principiava me aceitando por um caso perdido, que não adiantava melhorar.</p>
<p>        Esse ano até fora uma bomba só. Eu entrava da aula do professor particular, quando enxerguei a saparia na varanda e Maria entre os demais. Passei bastante encabulado, todos em férias, e os livros que eu trazia na mão me denunciando, lembrando a bomba, me achincalhando em minha imperfeição de caso perdido. Esbocei um gesto falsamente alegre de bom-dia, e fui no escritório pegado, esconder os livros na escrivaninha de meu pai. Ia já voltar para o meio de todos, mas Matilde, a peste, a implicante, a deusa estúpida que Tia Velha perdia com suas preferências:</p>
<p>        – Passou seu namorado, Maria.</p>
<p>        – Não caso com bombeado – ela respondeu imediato, numa voz tão feia, mas tão feia, que parei estarrecido. Era a decisão final, não tinha dúvida nenhuma. Maria não gostava mais de mim. Bobo de assim parado, sem fazer um gesto, mal podendo respirar. </p>
<p>        Aliás um caso recente vinha se ajuntar ao insulto pra decidir de minha sorte. Nós seríamos até pobretões, comparando com a família de Maria, gente que até viajava na Europa. Pois pouco antes, os pais tinham feito um papel bem indecente, se opondo ao casamento duma filha com uma rapaz diz-que pobre mas ótimo. Houvera um rompimento de amizade, mal-estar na parentagem toda, o caso virara escândalo mastigado e remastigado nos comentários de hora de jantar. Tudo por causa do dinheiro.</p>
<p>        Se eu insistisse em gostar de Maria, casar não casava mesmo, que a família dela não havia de me querer. Me passou pela cabeça comprar um bilhete de loteria. &#8220;Não caso com bombeado&#8221;&#8230; Fui abraçando os livros de mansinho, acariciei-os junto ao rosto, pousei a minha boca numa capa, suja de pó suado, retirei a boca sem desgosto. Naquele instante eu não sabia, hoje sei: era o segundo beijo que eu dava em Maria, último beijo, beijo de despedida, que o cheiro desagradável do papelão confirmou. Estava tudo acabado entre nós dois.</p>
<p>        Não tive mais coragem pra voltar à varanda e conversar com&#8230; os outros. Estava com uma raiva desprezadora de todos, principalmente de Matilde. Não, me parecia que já não tinha raiva de ninguém, não valia a pena, nem de Matilde, o insulto partira dela, fora por causa dela, mas eu não tinha raiva dela não, só tristeza, só vazio, não sei&#8230; creio que uma vontade de ajoelhar. Ajoelhar sem mais nada, ajoelhar ali junto da escrivaninha e ficar assim, ajoelhar. Afinal das contas eu era um perdido mesmo, Maria tinha razão, tinha razão, tinha razão, que tristeza!</p>
<p>        Foi o fim? Agora é que vem o mais esquisito de tudo, ajuntando anos pulados. Acho que até não consigo contar bem claro tudo o que sucedeu. Vamos por ordem: Pus tal firmeza em não amar Maria mais, que nem meus pensamentos me traíram. De resto a mocidade raiava e eu tinha tudo a aprender. Foi espantoso o que se passou em mim. Sem abandonar o meu jeito de &#8220;perdido&#8221;, o cultivando mesmo, ginásio acabado, eu principiara gostando de estudar. Me batera, súbito, aquela vontade irritada de saber, me tornara estudiosíssimo. Era mesmo uma impaciência raivosa, que me fazia devorar bibliotecas, sem nenhuma orientação. Mas brilhava, fazia conferências empoladas em sociedadinhas de rapazes, tinha idéias que assustavam todo o mundo. E todos principiavam maldando que eu era muito inteligente mas perigoso.</p>
<p>        Maria, por seu lado, parecia uma doida. Namorava com Deus e todo o mundo, aos vinte anos fica noiva de um rapaz bastante rico, noivado que durou três meses e se desfez de repente, pra dias depois ela ficar noiva de outro, um diplomata riquíssimo, casar em duas semanas com alegria desmedida, rindo muito no altar e partir em busca duma embaixada européia com o secretário chique seu marido.</p>
<p>        Às vezes meio tonto com estes acontecimentos fortes, acompanhados meio de longe, eu me recordava do passado, mas era só pra sorrir da nossa infantilidade e devorar numa tarde um livro incompreensível de filosofia. De mais a mais, havia Rose pra de-noite, e uma linda namoradinha oficial, a Violeta. Meus amigos me chamavam de &#8220;jardineiro&#8221;, e eu punha na coincidência daqueles duas flores uma força de destinação fatalizada. Tamanha mesmo que topando numa livraria com The Gardener de Tagore, comprei o livro e comecei estudando o inglês com loucura. Mário de Andrade conta num dos seus livros que estudou o alemão por causa dum emboaba tordilha&#8230; eu também: meu inglês nasceu duma Violeta e duma Rose.</p>
<p>Não, nasceu de Maria. Foi quando uns cinco anos depois, Maria estava pra voltar pela primeira vez ao Brasil, a mãe dela, queixosa de tamanha ausência, conversando com mamãe na minha frente, arrancou naquele seu jeito de gorda desabrida:</p>
<p>– Pois é, Maria gostou tanto de você, você não quis!&#8230; e agora ela vive longe de nós.</p>
<p>Pela terceira vez fiquei estarrecido neste conto. Percebi tudo num tiro de canhão. Percebi ela doidejando, noivando com um, casando com outro, se atordoando com dinheiro e brilho. Percebi que eu fora uma besta, sim agora que principiava sendo alguém, estudando por mim fora dos ginásios, vibrando em versos que muita gente já considerava. E percebi horrorizado, que Rose! nem Violeta, nem nada! era Maria que eu amava como louco! Maria é que amara sempre, como louco: ôh como eu vinha sofrendo a vida inteira, desgraçadíssimo, aprendendo a vencer só de raiva, me impondo ao mundo por despique, me superiorizando em mim só por vingança de desesperado. Como é que eu pudera me imaginar feliz, pior: ser feliz, sofrendo daquele jeito! Eu? eu não! era Maria, era exclusivamente Maria toda aquela superioridade que estava aparecendo em mim&#8230; E tudo aquilo era uma desgraça muito cachorra mesma. Pois não andavam falando muito de Maria? Contavam que pintava o sete, ficara célebre com as extravagâncias e aventuras. Estivera pouco antes às portas do divórcio, com um caso escandaloso por demais, com um pintor de nomeada que só pintava efeitos de luz. Maria falada, Maria bêbeda, Maria passada de mão em mão, Maria pintada nua&#8230;</p>
<p>Se dera como que uma transposição de destinos&#8230; E tive um pensamento que ao menos me salvou no instante: se o que tinha de útil agora em mim era Maria, se ela estava se transformando no Juca imperfeitíssimo que eu fora, se eu era apenas uma projeção dela, como ela agora apenas uma projeção de mim, se nos trocáramos por um estúpido engano de amor: mas ao menos que eu ficasse bem ruim, mas bem ruim mesmo outra vez pra me igualar a ela de novo. Foi a razão da briga com Violeta, impiedosa, e a farra dessa noite – bebedeira tamanha que acabei ficando desacordado, numa série de vertigens, com médico, escândalo, e choro largo de mamãe com minha irmã.</p>
<p>Bom, tinha que visitar Maria, está claro, éramos &#8220;gente grande&#8221; agora. Quando soube que ela devia ir a um banquete, pensei comigo: &#8220;ótimo, vou hoje logo depois de jantar, não encontro ela e deixo o cartão&#8221;. Mas fui cedo demais. Cheguei na casa dos pais dela, seriam nove horas, todos aqueles requififes de gente ricaça, criado que leva cartão numa salva de prata etc. Os da casa estavam ainda jantando. Me introduziram na saletinha da esquerda, uma espécie de luís-quinze muito sem-vergonha, dourado por inteiro, dando pro hol central. Que fizesse o favor de esperar, já vinham.</p>
<p>Contemplando a gravura cor-de-rosa, senti de supetão que tinha mais alguém na saleta, virei. Maria estava na porta, olhando pra mim, se rindo, toda vestida de preto. Olhem: eu sei que a gente exagera em amor, não insisto. Mas se eu já tive a sensação da vontade de Deus, foi ver Maria assim, toda de preto vestida, fantasticamente mulher. Meu corpo soluçou todinho e tornei a ficar estarrecido.</p>
<p>– Ao menos diga boa-noite, Juca&#8230;</p>
<p>&#8220;Boa-noite, Maria, eu vou-me embora&#8221;&#8230; meu desejo era fugir, era ficar e ela ficar mas, sim, sem que nos tocássemos sequer. Eu sei, eu juro que sei que ela estava se entregando a mim, me prometendo tudo, me cedendo tudo quanto eu queria, naquele se deixar olhar, sorrindo leve, mãos unidas caindo na frente do corpo, toda vestida de preto. Um segundo, me passou na visão devorá-la numa hora estilhaçada de quarto de hotel, foi horrível. Porém, não havia dúvida: Maria despertava em mim os instintos da perfeição. Balbuciei afinal um boa-noite muito indiferente, e as vozes amontoadas vinham do hol, dos outros que chegavam.</p>
<p>Foi este o primeiro dos quatro amores eternos que fazem de minha vida uma grave condensação interior. Sou falsamente um solitário. Quatro amores me acompanham, cuidam de mim, vêm conversar comigo. Nunca mais vi Maria, que ficou pelas Europas, divorciada afinal, hoje dizem que vivendo com um austríaco interessado em feiras internacionais. Um aventureiro qualquer. Mas dentro de mim, Maria&#8230; bom: acho que vou falar banalidade.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/literaturabrasileira.wordpress.com/14/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/literaturabrasileira.wordpress.com/14/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/literaturabrasileira.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/literaturabrasileira.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/literaturabrasileira.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/literaturabrasileira.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/literaturabrasileira.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/literaturabrasileira.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/literaturabrasileira.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/literaturabrasileira.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/literaturabrasileira.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/literaturabrasileira.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/literaturabrasileira.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/literaturabrasileira.wordpress.com/14/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/literaturabrasileira.wordpress.com/14/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/literaturabrasileira.wordpress.com/14/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=14&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A solidão do Girafo &#8211; Carlos Drummond de Andrade</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Jun 2008 01:52:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lucasmontan</dc:creator>
				<category><![CDATA[adolescente]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[girafa]]></category>
		<category><![CDATA[racionais]]></category>

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		<description><![CDATA[Vai, Raio de Luz, vai até Brasília e procura lá a tua namorada, que te dará prazer e filhos, e, com eles, voltarás ao Rio de Janeiro, onde não tens chance de casamento e multiplicação da espécie. Vejo-te passar, o esguio pescoço desafiando viadutos, passarelas e túneis, e sinto que o surrealismo é coisa de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=13&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vai, Raio de Luz, vai até Brasília e procura lá a tua namorada, que te dará prazer e filhos, e, com eles, voltarás ao Rio de Janeiro, onde não tens chance de casamento e multiplicação da espécie. Vejo-te passar, o esguio pescoço desafiando viadutos, passarelas e túneis, e sinto que o surrealismo é coisa de arquivo. Pintor que te pintasse viajando dessa maneira seria apenas um copista do cotidiano.</p>
<p>Não podias mais continuar no Rio, sem companheira prestante, e sujeito a equívocos escabrosos com os machos da tua espécie. Precisavas de uma girafa indubitável para o ofício do amor. Puseram-te em caminhão equipado com fiação elétrica e buzina de alarme, acionável ao menor indício de anormalidade, seja na rodovia seja no interior de tua silenciosa organização de girafo.</p>
<p>Sei que deformo teu nome, trocando a letra final, mas já é tempo de dissipar a ambigüidade das designações genéricas, em meio à indefinição crescente dos sexos, observada na sociedade humana. Quando já não se sabe ao certo quem é varão quem é varoa, pelo menos se saiba distinguir o pavão da pavoa ou pavona, o elefanto da elefanta, o sabiau da sabiá, o cisno da cisna, o tigro da tigra, em vez de nos socorrermos do aditamento macho e fêmea. Se distinguimos gato e gata, por que não foco e foca, tamanduó e tamanduá, tatu e tatua? (Deixo aos entendidos o levantamento da nominata completa.) Fica mais fácil e constitui merecida homenagem à pequena, mas divina, diferença que tornou viável o milagre da vida.</p>
<p>O Rio anda tão pobre que até lhe falta uma girafa para amar um girafo, e é preciso recorrer a Brasília, que de resto não consta ser pródiga em atendimento às necessidades nacionais. Mas que tenha uma girafa núbil e disponível já é coisa boa de se saber. Não ficarás solteiro, &#8220;Raio de Luz&#8221;. E procriarás e tua prole se desdobrará em girafinhos e girafinhas que enriquecerão os nossos zôos, para alegria da meninada curiosa de ver bichos originais, em confronto com a pouca ou nenhuma originalidade de tantos bichos por aí, quadrúpedes ou bípedes.</p>
<p>Por ser conveniente o otimismo, descarto a hipótese de a girafa brasiliana te recusar. Seria muito triste, além de muito oneroso, que a tua viagem, exigindo mil cuidados, tivesse como epílogo o desentendimento entre os parceiros. Não resta dúvida que, democraticamente, a moça girafa tem direito de escolha, e pode não ir contigo e com teu focinho. Mas, por outro lado, não consta que em alguma parte do Brasil os moços girafos sejam numerosos, e ela corre o risco de morrer solteira. Então, presumo que tudo contribui para um enlace feliz; o solitário carioca rejubila-se ao encontrar a solitária planaltina.</p>
<p>Casamento giráfico: não será tão pomposo quanto o do Príncipe Charles, mas em ocasião como esta, de nuvens escuras e bombas perversas, é um descanso para o espírito saber que todas as providências estão sendo tomadas para que um girafo encontre sua girafa e deste encontro resultem girafotes, ou girafelhos, que são fedelhos girafos. Eu, cândido de coração, me associo à expectativa amena de termos no futuro um zoológico bem provido de população girafista de dois sexos, graças à tua linhagem, &#8220;Raio de Luz&#8221;. Chego a delirar, e sonho um zôo exclusivamente dedicado ao animal mais alto do mundo e que, por isso mesmo, nos dê sugestões de altura, quer material quer moral. Essa fauna esplêndida, que efeito mágico produzirá! Cada um de nós há de sentir-se estimulado a crescer no mínimo alguns centímetros em dignidade cívica, abnegação, amor à verdade. Uma verdade que talvez esteja refugiada nas selvas mas que se entremostre, de relance, no simples e exato comportamento de um animal trazido para o nosso convívio.</p>
<p>A girafa parece que não consegue lamber o próprio corpo, quer dizer, ela pede que outros o façam. Expõe o corpo e confia na ação alheia. Defende-se menos do que se expõe. E, sendo animal exposto, sujeito à apreciação e ao julgamento gerais, é realmente de bom convívio. Não quer privilégios. E, mesmo calada, não é sigilosa. A mania de sigilo, que nós, supostos racionais, inventamos está longe de ser uma regra da natureza. Os bichos não mentem. São o que são, verificáveis. Eu gosto de girafa. Tem pescoço e não tem artimanha. Só não dou um abraço a Raio de Luz porque seria impraticável. Mas torço pelo seu feliz himeneu e prometo mesmo compor um epitalâmio para o casal.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/literaturabrasileira.wordpress.com/13/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/literaturabrasileira.wordpress.com/13/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/literaturabrasileira.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/literaturabrasileira.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/literaturabrasileira.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/literaturabrasileira.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/literaturabrasileira.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/literaturabrasileira.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/literaturabrasileira.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/literaturabrasileira.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/literaturabrasileira.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/literaturabrasileira.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/literaturabrasileira.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/literaturabrasileira.wordpress.com/13/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/literaturabrasileira.wordpress.com/13/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/literaturabrasileira.wordpress.com/13/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=13&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Primeira comunhão &#8211; Fernando Sabino</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Jun 2008 02:30:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lucasmontan</dc:creator>
				<category><![CDATA[criança]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[pai]]></category>
		<category><![CDATA[religião]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele estava nervoso, muito empertigado no seu terninho branco: - Se colar no céu da boca o que é que eu faço? - Tira com a língua &#8211; recomendei. - Com o dedo não pode não? - Não pode não. Ao entrarmos no pátio da igreja, esqueceu suas preocupações e saiu correndo para juntar-se aos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=10&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ele estava nervoso, muito empertigado no seu terninho branco:<br />
- Se colar no céu da boca o que é que eu faço?<br />
- Tira com a língua &#8211; recomendei.<br />
- Com o dedo não pode não?<br />
- Não pode não.<br />
Ao entrarmos no pátio da igreja, esqueceu suas preocupações e saiu correndo para juntar-se aos outros. Sob o olhar embevecido dos pais a meninada se estranhava: tolhida pelo cuidado com a roupa toda branca e muito armada, e a fita no braço, e a expectativa da cerimônia, não se expandia livremente como no recreio do colégio. Ainda assim trançavam aqui e ali entre os adultos, brincando e rindo, criticando-se mutuamente:<br />
- Você veio de luva? A professora disse que não precisava.<br />
- Uê, você está de calça comprida!<br />
- O padre disse que podia.<br />
- Meu laço é mais bonito que o seu.<br />
- O meu tem um desenhinho, olha aí.<br />
Em pouco surgiu o vigário e os pôs em fila. Marcharam para o interior da igreja. Solenizados e hirtos, nós, os cavalões, também elegantemente ajaezados, nos postamos ao redor, prestando atenção na missa, como se nada estivesse acontecendo. Mas andava no ar o inquietante silêncio de algo precioso que estava para nos acontecer e que poderia escapar-nos, como uma palavra apenas sussurrada e de nôvo perdida. E a todo instante olhávamos disfarçados os nossos filhos, com a benevolente compreensão de quem lembra já ter vivido momento semelhante e teme não merecer sua renovação e teme não merecer sua renovação ao menos na lembrança. Eu, evidentemente, só tinha olhos para um menino no segundo banco, repetindo com os outros o ritual que o padre lhe ensinara, preparado para a sua primeira grande aventura.<br />
De súbito um imprevisto ameaçou perturbar a cerimônia: uma voz de homem, alta e mal articulada. Irrompeu lá detrás e o bêbado veio avançando, vacilante, até se deixar cair sentado no banco a meu lado. Era um preto de camiseta de meia, sem mangas, provavelmente operário de alguma construção vizinha, e àquela hora da manhã já (ou ainda) estava no maior pileque deste mundo. Resmungou qualquer coisa e correu os olhos baços ao redor, sem ver nada. Várias cabeças se voltavam, apreensivas, como a pedir que eu fizesse alguma coisa &#8211; e eu não sabia o que diabo se deve fazer numa cirscunstância dessas.<br />
- Psiu, companheiro, fique quietinho aí &#8211; sussurrei-lhe, temendo que ele reagisse, para agravar a situação. Limitou-se, porém, a olhar-me com desprezo e engrolar duas ou três palavras desastrosamente gritadas. Depois se pôs a falar em voz alta:<br />
- Sou católico apostólico romano. Sou muito amigo de Nosso Senhor Jesus Cristo.<br />
O vigário deixou os meninos e veio de lá passar-lhe um pito, mas de nada adiantou: em pouco tempo ele recomeçava a falar. Até o celebrante, em meio à Missa, parecia perceber que algo de anormal acontecia.<br />
- Vamos até ali fora &#8211; saltou de repente uma voz, e o preto foi empolgado pelo braço, carregado para fora como uma criança. Olhei com admiração o autor da façanha, que já voltava, livre do importuno: era um dos pais, o mais corpulento, cuja autoridade se fizera exercer de maneira tão categorica, a que até a mim intimidou, como se eu fosse também responsável pela perturbação da ordem. E a ordem voltou a reinar dentro do templo.<br />
- Eu não sabia que na igreja também tinha leão de chácara &#8211; gracejou ainda uma senhora a meu lado.<br />
O incidente me distraiu, fiquei pensando no preto atirado na rua. Ele estava inconveniente, não tinha dúvida, mas podia ser que fosse mesmo amigo de Nosso Senhor Jesus Cristo, e neste caso foi bom que eu não me tivesse metido.</p>
<p>Chegou enfim o momento. Um a um os meninos, cuidadosamente ensaiados, deixaram seus lugares e depois foram voltando sérios e contritos. Por um instante me deixo levar pela emoção, o coração se enternece e a lembrança procura recolher, sofrega, o que possa guardar desse dia e que durante algum tempo me sustente em esperança de renovarme. Há por que esperar: aquele menino ali no segundo banco, olhos baixos e de mãos postas, deve ter no momento mais prestígio que ninguém lá em cima e talvez se lembre de rezar pelo pai, que anda precisando muito.<br />
Depois houve um lanche no pátio, com café e farta distribuição de sanduíches.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/literaturabrasileira.wordpress.com/10/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/literaturabrasileira.wordpress.com/10/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/literaturabrasileira.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/literaturabrasileira.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/literaturabrasileira.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/literaturabrasileira.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/literaturabrasileira.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/literaturabrasileira.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/literaturabrasileira.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/literaturabrasileira.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/literaturabrasileira.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/literaturabrasileira.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/literaturabrasileira.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/literaturabrasileira.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/literaturabrasileira.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/literaturabrasileira.wordpress.com/10/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=10&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Um pouco distraído &#8211; Fernando Sabino</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Jun 2008 18:29:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lucasmontan</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ando um pouco distraído, ultimamente. Alguns amigos mais velhos sorriem, complacentes, e dizem que é isso mesmo, costuma acontecer com a idade, não é distração: é memória fraca mesmo, insuficiência de fosfato. O diabo é que me lembro cada vez mais de coisas que deveria esquecer: dados inúteis, nomes sem significado, frases idiotas, circunstâncias ridículas, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=8&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ando um pouco distraído, ultimamente. Alguns amigos mais velhos sorriem, complacentes, e dizem que é isso mesmo, costuma acontecer com a idade, não é distração: é memória fraca mesmo, insuficiência de fosfato.</p>
<p>O diabo é que me lembro cada vez mais de coisas que deveria esquecer: dados inúteis, nomes sem significado, frases idiotas, circunstâncias ridículas, detalhes sem importância. Em compensação, troco o nome das pessoas, confundo fisionomias, ignoro conhecidos, cumprimento desafetos. Nunca sei onde largo objetos de uso e cada saída minha de casa representa meia hora de atraso em aflitiva procura: quede minhas chaves? meus cigarros? meu isqueiro? minha caneta?</p>
<p>Estou convencido de que tais objetos, embora inanimados, tem um pacto secreto com o demônio para me atormentar: eles se escondem.</p>
<p>Recentemente descobri a maneira infal[ivel de derrota-los. Ainda há pouco quis acender um cigarro, dei por falta do isqueiro. Em vez de procura-lo freneticamente, como ja fiz tantas vezes, abrindo e fechando gavetas, revirando a casa feito doido, para acabar plantado no meio da sala apalpando os bolsos vazios como um tarado, leantei-me com naturalidade sem olhar para lugar nenhum e fui olimpicamente à cozinha apanhar uma caixa de fósforos. Ao voltar &#8211; eu sabia! &#8211; dei com o bichinho ali mesmo, na ponta da mesa, bem diante do meu nariz, a olhar-me desapontado. Tenho a certeza de que ele saiu de seu esconderijo <em>para me espiar</em> até agora estou vencendo: quando eles se escondem, saio de casa sem chaves e bato na porta ao voltar; compro outro maço de cigarros na esquina, uma nova caneta, mais um par de óculos escuros; e não telefono para ninguém até que minha caderneta resolva aparecer. É uma guerra sem tréguas, mas hei de sair vitorioso.</p>
<p>Dai para me considerar um distraído, vai um grande passo. Esse passo quase dei outro dia, ao abrir a porta do quarto e ganhar calmamente o corredor. A empregada me olhava espavorida, mas logo pude considerar justificável a sua estranha reação, dado que me esquecera de vestir as calças.</p>
<p>Alarmado, confidenciei a um amigo este e outros pequenos lapsos que me tem ocorrido, mas ele me consolou de pronto, contando as distrações de um tio seu, perto do qual não passo de mero principiante.</p>
<p>Trata-se de um desses que põe o guarda-chuva na cama, e se dependuram no cabide, como manda a anedota. Já saiu a rua com o chapéu da esposa na cabeça. Já cumprimentou o trocador de ônibus quando este lhe estendeu a mão para cobrar a passagem. Já deu parabéns a viúva na hora do velório do marido. Certa noite, recebendo em sua casa uma visita de cerimônia, despertou de um rápido cochilo e se ergueu logo dizendo para sua mulher: “vamos, meu bem, que já está ficando tarde.” O contrário se deu quando, recentemente, errou de porta e entrou em casa alheia, estirou-se na poltrona, abriu o jornal e tirou os sapatos, estranhando a empregada que o olhada estupefata: “empregada nova, hein? Avise a patroa que já cheguei. E traga meus chinelos.”</p>
<p>Contou-me aida o sobrinho do monstro que sair com um sapato diferente em cada pé, tomar ônibus errado, esquecer dinheiro em casa, são coisas que ele faz quase todos os dias. A mulher fica aflita, temendo que um dia ele esqueça definitivamente o caminho de casa. Perde, em média, um par de óculos por semana e nunca trouxe de volta o mesmo guarda chuva com que saiu. Já lhe aconteceu tanto se esquecer de almoçar como almoçar duas vezes. Outro dia arranjou para o sobrinho um emprego num escritório de advocacia, para que fosse praticando, enquanto estudante.</p>
<p>- Você sabe &#8211; me conta o sobrinho:</p>
<p>- O que eu estudo é medicina…</p>
<p>Não, eu não sabia: para dizer a verdade, só agora o estava identificando. Mas não passei recibo &#8211; faz parte de minha nova estratégia, para não acabar como o tio dele: dar o dito por não dito, não falar mais no assunto, acender um cigarro. É o que farei agora. Isto é, se achar o cigarro.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/literaturabrasileira.wordpress.com/8/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/literaturabrasileira.wordpress.com/8/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/literaturabrasileira.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/literaturabrasileira.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/literaturabrasileira.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/literaturabrasileira.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/literaturabrasileira.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/literaturabrasileira.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/literaturabrasileira.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/literaturabrasileira.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/literaturabrasileira.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/literaturabrasileira.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/literaturabrasileira.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/literaturabrasileira.wordpress.com/8/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/literaturabrasileira.wordpress.com/8/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/literaturabrasileira.wordpress.com/8/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=8&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O falso coronel &#8211; Fernando Sabino</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Jun 2008 16:38:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lucasmontan</dc:creator>
				<category><![CDATA[adolescente]]></category>
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		<category><![CDATA[rebeldia]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><span lang="PT-BR">Sonhei que ia por uma estrada sob a luz da lua, quando, a uma curva do caminho, dou com um casarão estranho, ares de mal-assombrado. No andar inferior podia-se ver através das janelas o que se passava lá dentro. A princípio me pareceu a mais desvairada orgia: corpos semi despidos ou completamente nus que se misturavam numa dança frenética, ou que rolavam pelo chão, engalfinhados. Logo percebi que eram loucos furiosos, aprisionados num hospício. Parecia uma visão medonha do próprio inferno. Apavorado, eu já ia tratando de me afastar, quando surge à minha frente um sujeito enorme, que mais parecia um gorila: olhos dilatados, cabelos revoltos, mãos crispadas, braços estendidos para a frente como se estivesse para se abater sobre mim. Era, certamente, um louco fugido daquele hospício. Antes que ele me agredisse, todavia, ocorreu-me a idéia salvadora.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">- Enquadre-se! – ordenei, numa voz de comando que não admitia vacilações: &#8211; Apresente-se ao comandante da sua unidade!</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">O louco imediatamente se perfilou, fazendo-me continência:</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">- Pois não, meu coronel.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">Fiz-lhe também uma continência, já contendo o riso, e o vi dar meia-volta, para logo se recolher no hospício de onde fugira. Não resisti mais e abri numa gargalhada. A essa altura minha mulher me acordou, assustada, perguntando o que se passavam pois me vira fazer dormindo uma continência e depois começar a rir ruidosamente, como um idiota.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">Contei mais tarde o sonho a meu amigo Hélio Pellegrino e pedi que me desse, como psicanalista, uma interpretação. Ele não vacilou:</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">- Quer dizer simplesmente isto: o doido que existe em você é trazido num verdadeiro regime de disciplina militarm com exercícios de ordem unida e tudo mais. O diabo vai ser o dia que ele descobrir que você não é coronel.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">O doido que existe em mim. Em todos nós – inclusive no Hélio Pellegrino, no entanto mais sensato e equilibrado que muito coronel. O ser humano ainda não conquistou um mínimo de equilíbrio mental que justifique a sua pretensão de civilizado – nem sequer de ser racional, feito à imagem e semelhança de Deus. Perdeu no pecado a divina condição de sua origem. Perdeu tudo, menos a razão, como na célebre definição de Chesterton. Não passa de rei dos animais, com desdouro para o leão, na sua autêntica e incontrastável realeza. Basta um olhar ao redor, para nos certificarmos que é tudo tantã – como dizia aquele doido do programa de televisão. O único homem equilibrado e perfeito que jamais existiu na face da terra foi Jesus Cristo – e esse, como sensatamente dizia aquele outro doido, olhem só o fim que ele teve.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">Basta observar este ser dos mais puros, na flor da sua inocência, que é uma criança. Se a criança é mesmo pai do homem, então estamos bem servidos, porque menino e doido é a mesma coisa. Menino fala sozinho, rasga dinheiro, bota fogo na casa e acha sempre que tem um jacaré debaixo da cama.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">O pior é que às vezes tem. </span></p>
<p class="MsoNormal">Pois então deixa eu dizer que o louco que existe em mim é o responsável pelas emoções mais puras que a vida me deu. Foi ele, este monstro oligofrênico de olhos cintilantes e cabelos desgrenhados, que um dia saltou dentro de mim e gritou basta! num momento em que meu ser civilizado, bem penteado, bem vestido e ponderado dizia sim a uma injustiça. Foi ele quem amou e se apaixonou e possuiu a mulher e lhe fez filhos. Foi ele quem sofreu quando jovem a emoção de um desencanto, e chorou quando menino a perda de um brinquedo, debatendo-se na camisa de força com que os mais velhos procuram conter o seu protesto. E é ele que dorme dentro de mim o seu sono cheio de pesadelos, pronto a despertar a qualquer momento para reivindicar o direito de ir aonde levem os seus passos e fazer ouvir o som desarticulado de suas palavras.</p>
<p class="MsoNormal">Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, é o cerne da minha condição de homem, herói e pobre diabo, paria, negro, judeu, santo e débil mental, soldado raso submetido ou beneficiado pela hierarquia dos privilégios, escravizado à férrea disciplina das conveniências, mas que um dia há de rebelar-se, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza da sua loucura ao descobrir enfim que nunca fui nem serei coronel.</p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/literaturabrasileira.wordpress.com/5/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/literaturabrasileira.wordpress.com/5/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/literaturabrasileira.wordpress.com/5/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/literaturabrasileira.wordpress.com/5/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/literaturabrasileira.wordpress.com/5/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/literaturabrasileira.wordpress.com/5/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/literaturabrasileira.wordpress.com/5/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/literaturabrasileira.wordpress.com/5/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/literaturabrasileira.wordpress.com/5/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/literaturabrasileira.wordpress.com/5/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/literaturabrasileira.wordpress.com/5/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/literaturabrasileira.wordpress.com/5/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/literaturabrasileira.wordpress.com/5/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/literaturabrasileira.wordpress.com/5/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/literaturabrasileira.wordpress.com/5/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/literaturabrasileira.wordpress.com/5/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=5&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Aula de inglês &#8211; Rubem Braga</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Jun 2008 21:03:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lucasmontan</dc:creator>
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		<category><![CDATA[desafios]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[eu contra]]></category>
		<category><![CDATA[poder]]></category>
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		<description><![CDATA[- Is this an elephant? Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propôe um grave problema. Em vista disso, examinei com a maior [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=4&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Is this an elephant?</p>
<p>Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propôe um grave problema. Em vista disso, examinei com a maior atenção o objeto que ela me apresentava.</p>
<p>Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoa leviana poderia concluir às pressas que não se tratava de um elefante. Mas se tirarmos a tromba de um elefante, nem por isso deixa de ser um elefante; e mesmo que morra em consequência da brutal operação, continua a ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, em princípio, tão elefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me de averiguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossas patas, como costumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco consegui descobrir o pequeno rabo que caracteriza o grande animal e que, às vezes, como já notei em um circo, ele costuma abanar com uma graça infantil.</p>
<p>Terminadas as minhas observações, voltei-me para a professora e disse convictamente:</p>
<p>- No, it´s not!</p>
<p>Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demora de minha resposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente perguntou:</p>
<p>- Is it a book?</p>
<p>Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte da minha vida no meio dos livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro à primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras &#8211; sejam quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no máximo dois segundos:</p>
<p>- No, it´s not!</p>
<p>Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita &#8211; mas só por alguns segundos. Aquela mulher era um desses espíritos insaciáveis que estão sempre a propor questões, e se debruçam com uma curiosidade aflita sobre a natureza das coisas.</p>
<p>- Is it a handkerchief?</p>
<p>Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizer a verdade, não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fosse hipoteca&#8230; Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca? Handkerchief! Era uma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática; talvez fosse chefe de serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muito provavelmente, enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido:</p>
<p>- No, it´s not!</p>
<p>Minhas palavras soaram alto, com certa violência, pois me repugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nos meus arredores pudesse ser um handkerchief.</p>
<p>Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez, porém, a pergunta foi precedida de um certo olhar em que havia uma luz de malícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque de desafio. Sua voz era mais lenta que das outras vezes; não sou completamente ignorante em psicologia feminina, e antes de ela abrir a boca eu já tinha a certeza que se tratava de uma pergunta decisiva.</p>
<p>- Is it an ash-tray?</p>
<p>Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeiro lugar porque eu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Em segundo lugar porque, fitando o objeto que ela me apresentava, notei uma extraordinária semelhança entre ele e um ash-tray. Sim. Era um objeto de louça de forma oval, com cerca de treze centímetros de comprimento. As bordas eram da altura aproximada de um centímetro, e nelas havia reentrâncias curvas &#8211; duas ou três &#8211; na parte superior. Na depressão central, uma espécie de bacia delimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço de cigarro fumado (uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de um palito de fósforos já riscado. Respondi:</p>
<p>-Yes!</p>
<p>O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhora teve o rosto completamente iluminado por uma onda de alegria; os olhos brilhavam &#8211; vitória! vitória! &#8211; e um largo sorriso desabrochou rapidamente nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta. Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir de estender o braço e me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muito excitada:</p>
<p>- Very well! Very well!</p>
<p>Sou um homem de natural tímido, e ainda mais no lidar com mulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória me perturbou; tive um susto, senti vergonha e muito orgulho.</p>
<p>Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja, alguns belos cachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o embaixador britâncio, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:</p>
<p>- It´s not an ash-tray!</p>
<p>E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eu sabia falar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixador ver que sua língua nata começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé do país junto a cujo governo é acreditado.</p>
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		<title>Fuga &#8211; Fernando Sabino</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Jun 2008 19:51:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lucasmontan</dc:creator>
				<category><![CDATA[criança]]></category>
		<category><![CDATA[casa]]></category>
		<category><![CDATA[pai]]></category>
		<category><![CDATA[rebeldia]]></category>

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		<description><![CDATA[Mal o pai colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal. - Pára com esse barulho, meu filho &#8211; falou, sem se voltar. Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=literaturabrasileira.wordpress.com&amp;blog=3889441&amp;post=3&amp;subd=literaturabrasileira&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mal o pai colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal.</p>
<p>- Pára com esse barulho, meu filho &#8211; falou, sem se voltar.</p>
<p>Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma cadeira.</p>
<p>- Pois então pára de empurrar a cadeira.</p>
<p>- Eu vou embora &#8211; foi a resposta.</p>
<p>Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um resto de biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da dispensa? &#8211; a mãe mais tarde irá dizer), metade de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.</p>
<p>A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente, o pai olhou ao redor e não viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:</p>
<p>- Viu um menino saindo desta casa? &#8211; gritou para o operário que descansava diante da obra do outro lado da rua, sentado no meio-fio.</p>
<p>- Saiu agora mesmo com uma trouxinha &#8211; informou ele.</p>
<p>Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do muro. A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço de biscoito e &#8211; saíra de casa prevenido &#8211; uma moeda de 1 cruzeiro. Camou-o, mas ele apertou o passinho, abriu a correr em direção à Avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia a distância.</p>
<p>- Meu filho, cuidado!</p>
<p>O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto. O menino, assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como a um animalzinho:</p>
<p>- Que susto que você me passou meu filho &#8211; a apertava-o contra o peito, comovido.</p>
<p>- Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.</p>
<p>Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:</p>
<p>- Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai.</p>
<p>- Me larga. Eu quero ir embora.</p>
<p>Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala &#8211; tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da dispensa.</p>
<p>- Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.</p>
<p>- Fico, mas vou empurrar esta cadeira.</p>
<p>E o barulho recomeçou.</p>
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